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Há uma polêmica no ar: vale mais o profissional que troca de emprego de vez em quando ou aquele que permanece na empresa por muitos anos? Conheço consultores competentes que defendem as duas hipóteses.
Tive contato com esse assunto pela primeira vez quando eu ainda era estudante na Faculdade de Economia. Foi na primeira aula de microeconomia, ministrada pelo Professor Abdalla, um profeta dos novos tempos.
Abdalla passou a aula toda explicando porque ninguém deveria trabalhar mais de três anos numa mesma empresa. Sua filosofia era bastante simples: se você trabalhar três anos numa empresa vai aprender dez centímetros, se ficar mais três anos vai passar de dez para doze. Mudando de empresa, com mais três anos você vai aprender mais dez, isto é, oito a mais do que se tivesse permanecido na primeira. Aí, com uma irreverência que não agredia e até o tornava divertido e próximo dos alunos, levantava os braços bem acima da cabeça e caminhava entre as carteiras gritando com sua voz debochada e estridente: é matemática superior do primeiro ano primário, não exige prática, tampouco habilidade. Todo mundo ria entendendo suas brincadeiras. Hoje me lembro muito pouco de sua matéria, mas desta primeira aula, que de microeconomia não teve nada, jamais esqueci. Aprendi bem a lição, e embora nunca tenha conseguido mudar de emprego ao completar três anos na mesma empresa, quando passava a linha dos cinco já ficava incomodado — a voz do Abdalla, como se fosse um sussurro distante, me alertava que eu estava perdendo alguns centímetros preciosos de experiência.
Se fizermos pequenas alterações, veremos que a teoria do velho mestre se transformou numa impressionante realidade. Se alguém vacilar e depois de permanecer por longo período numa única empresa ganhar o bilhete azul, provavelmente poderá dar adeus ao mercado de trabalho. A não ser que tenha conseguido exercer outras funções dentro da mesma organização, pois essas mudanças internas podem funcionar mais ou menos como se fossem novas experiências em diferentes empresas.
Está certo também que a ordem hoje é estar sempre pronto para mudança, mas alguns levam essa regra ao pé da letra, caem no exagero e nem esquentam a cadeira. Há pouco tempo precisei contratar uma nova funcionária e me espantei ao analisar o currículo de uma das candidatas. Três meses numa empresa, cinco na seguinte, dois na última. O maior tempo de permanência foi de nove meses. Refleti bastante e me lembrei do Abdalla, imaginando o que ele diria diante de uma situação extrema como essa. Se não estou ficando maluco, me pareceu ter ouvido um debochado sussurro do inesquecível mestre: somando tudo não chega a dois centímetros.
Revista Vencer - Edição 106
Reinaldo Polito - Reinaldo Polito é mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de Expressão Verbal e autor de 15 livros. Site: www.polito.com.br
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